CAMINHOS DE NOSSA SENHORA

  • 22 Jul 2015 17:47

  • Escrito por Rodrigo de Freitas Ganhadeiro

Observação do Pe. Cristovão

    Esta dupla não seguiu exatamente o Caminhos de Nossa Senhora porque não tinha a sinalização no trajeto.

1º Caminhos de Nossa Senhora

2º RAAN – Rolé até Aparecida (Vassouras/RJ - Aparecida/SP)

 

   Há exatamente um ano tinha realizado o feito de ir de Vassouras/RJ a Aparecida/SP de bicicleta, foram 215km pela Via Dutra, uma viagem nada convencional para quem vai de bicicleta e não menos tensa, mesmo contando com carro de apoio.

   Então surgia a ideia de fazer um caminho alternativo, que não se utilizasse da Via Dutra e que pudesse ser feito sem o carro de apoio, uma viagem de bicicleta, totalmente livre. Após algumas pesquisas tomei como base o roteiro utilizado pelo Padre Cristovão Sopicki, realizado na Romaria Ciclística da Paz, ligando Niterói, no Rio de Janeiro, até o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo. Um trajeto de fé e devoção, sendo este também, o primeiro Caminho de peregrinação do Rio de Janeiro, até a Basílica de Nossa Senhora Aparecida, os Caminhos de Nossa Senhora.

Havia lido em uma revista especializada que o principal item para uma viagem de cicloturismo é a CORAGEM, então não me faltava mais nada. Convidei alguns amigos e apenas um aceitou o desafio de encarar uma inédita viagem para Aparecida/SP, Vitaly Costa e Silva.

Coincidência é que ambos tinham o mesmo e único final de semana disponível para realizarem o desafio, então com pouco tempo para se preparar para a viagem e não havendo outra data disponível, estava combinado e desmarcar o evento nunca foi opção, sairíamos no dia 17 de Julho, com previsão de chegada a Aparecida/SP, no dia 19.

O Dia D.

Às 6h do dia 17/07 partimos de Vassouras/RJ com as bicicletas devidamente carregadas e equipadas. Os primeiros quilômetros foram de adaptação ao peso e a nova forma de condução da bike.

Seguimos por Barão de Vassouras (Vassouras/RJ), Barão de Juparanã (Valença/RJ) e Conservatória (Valença/RJ) onde após 51km de asfalto tranquilo e 3h de viagem fizemos uma parada para um café da manhã. Dali em diante, tudo seria novidade, ao menos para mim. Seguimos para São José do Turvo (Barra do Piraí/RJ) e Nossa Senhora do Amparo (Barra Mansa/RJ), por uma estrada de terra (RJ-143) sem muita dificuldade de navegação. Aproximava-se o horário do almoço e escolhemos Quatis/RJ para almoçar, já havíamos rodado 100km em 6h de viagem. Almoçar pra mim, nessa situação, soava estranho, não sabia como o corpo iria reagir após a refeição, então optei por comer pouco e não me aventurar com alguns alimentos.

Então, durante a pausa do almoço, meu companheiro faz o seguinte comentário: “para fechar o dia, só faltam 60km”. Não precisa de muitos quilômetros para perceber que seu amigo de pedal é diferente de você! Porém isso pouco importa para o sucesso da viagem! Mas pelos menos em uma coisa vocês precisam ser iguais, na VONTADE.

Dizer que restavam 60km para fechar o dia significava que ele realmente colocaria em prática os planos de chegar a São José do Barreiro/SP ainda no primeiro dia e aproveitar o corpo inteiro. Nos meus planos chegar a Resende/RJ (120km) estaria ótimo.

Então decidimos seguir e ver até onde daria para andar no primeiro dia. Saímos de Quatis/RJ, atravessamos o Rio Paraíba do Sul em direção a Porto Real/RJ e seguimos pela “Via Dutra”, num dos momentos mais tensos da viagem até Resende/RJ. Uma parada para se hidratar com água de coco, antes de adentrar Resende/RJ.

No perímetro urbano de Resende/RJ perdemos muito tempo com informações, que se eu consegui entender, indicavam três acessos diferentes a São José do Barreiro/SP, qual deles seria o melhor para fazer de bicicleta? Tivemos a sorte de ao pedir informações num posto de gasolina contar com valiosa informação de um ciclista da região, aquela altura, com três caminhos diferentes a informação de um ciclista era mesmo valiosa, porque não confiar? Retornamos até uma Faculdade, onde encontramos a única placa indicativa de São José do Barreiro/SP, após o Condomínio Alphaville pegamos uma estrada de terras que nos levaria até a Rodovia dos Tropeiros (SP-068). Uma estradinha de terra, bem sinuosa, acompanhando um riacho e com uma subida suave, aquele ciclista estava realmente correto.

O dia estava terminando e certamente o final do trajeto seria feito a noite, um dos poucos momentos em que fiquei realmente preocupado. Esperava chegar a Rodovia dos Tropeiros (SP-068) ainda com um pouco de luz, pedalar a noite, por estradas de terras sem qualquer sinalização, com pontes, poderia ser mesmo perigoso. E felizmente quando a noite caiu já estávamos no asfalto da Rodovia dos Tropeiros, mais sinalizada e com alguma referência para a noite. Só me restava uma preocupação, se a rodovia não nos levasse diretamente a São José do Barreiro, correríamos o risco de ficarmos perdidos a noite.

Passamos pelo simpático lugar chamado Formoso, onde recebemos a informação de que restavam “apenas” 9km. Foram os 9km mais longos da minha vida com subidas íngremes e a falta de orientação provocada pela noite, parecia nunca chegar.

Chegamos a São José do Barreiro/SP, onde havia uma quermesse para animar a noite, depois de 168,5km e 10h de viagem, procuramos por hospedagem e fomos gentilmente atendidos pela proprietária da Pousada Guimarães, que também nos indicou o Restaurante Rancho para saciar a fome. Era hora de dormir e tentar descansar para o dia seguinte.

Dia 18/07.

Como a distância no dia seguinte seria menor, esticamos um pouco mais na cama e tomamos um café da manhã com mais calma, observando melhor os arredores da praça da Matriz e os hábitos de seu povo.

   Ao chegar na pousada e arrumar as coisas para seguir viagem, uma surpresa, minha bike estava com o pneu traseiro furado, dos males o menor, melhor trocar ali na pousada que no meio do caminho. Saímos em direção a Areias/SP e logo sentimos as consequências do abuso do dia anterior, sentar na bicicleta parecia impossível, mas logo o corpo aquece e pedalamos melhor, mesmo doloridos, passamos pela Represa do Funil e presenciamos as consequências da crise hídrica, daria para atravessar a pé aquele braço da represa, triste! Logo após fomos presenteados com uma serra, uma subida longa e íngreme, aproximadamente uns 6 km de subida, mesmo com o peso dos alforjes e o cansaço do dia anterior, empurrar não era opção, fomos girando, exercitando a paciência, a arte de padecer no paraíso... Embora a quilometragem pretendida para este dia fosse menor a altimetria não ajudou em nada.

   Após Areias/SP seguimos para Silveiras/SP, atravessando outra serra muito dura. Paramos para o almoço quando já somavam 49,3km em 3h de pedal do segundo dia. Uma pausa para a refeição e aguardar o horário crítico do calor. De Silveiras/SP seguimos para o que seria nosso último ponto do dia, Cachoeira Paulista/SP, a essa altura a altimetria tinha dado uma aliviada e a viagem começava a ganhar ritmo. Chegando em Cachoeira Paulista/SP com 68,6 km e 5h 23m de viagem, não havia vagas para hospedagem e decidimos aproveitar o dia e seguir até a próxima cidade em busca de um local pra dormir.

Após um pequeno trecho de Dutra, uma surpresa, de Cachoeira Paulista/SP, passando por Canas/SP até Lorena/SP existe uma ciclovia com aproximadamente 12km, devidamente sinalizada o que possibilitou desenvolver uma das maiores médias da viagem, com total segurança. Em Canas/SP, não havia opções de hospedagem e estrutura, uma cidade que me causou má impressão, como a primeira impressão é a que fica, decidimos então seguir um pouco mais até Lorena/SP e aproveitar a ciclovia e o pouco de dia. Chegamos a Lorena/SP com 87km e 6h34m, quase 20km a mais que o planejado para o dia, nos hospedamos no Dom Apart Hotel e no jantar resolvemos experimentar a hamburgueria do hotel, vale até dizer o nome “Big Deal”, o sanduiche era proporcional a fome e a nossa necessidade calórica, podem ter certeza, foi um jantar e tanto.

Dia 19/07.

 

   Tomamos um café da manhã reforçado, até demais, uma preguiça bateu e resolvemos descansar um pouco mais antes de partir, era merecido, pois faltavam apenas 21 km! Como a distância era pequena resolvemos seguir pela Dutra de Lorena/SP até Guaratinguetá/SP, onde pegamos a estrada velha para Aparecida/SP, esse caminho poderia ser feito todo pela “Estrada Velha”, sem muitos problemas. Enfim, chegamos a Aparecida/SP, são e salvos, concluímos nossa ciclo-viagem, um momento sem igual. Foram 03 dias, 277 km, 5.532m de elevação, sem apoio, somente com o que cabia em nossos alforjes. Até agora a maior viagem feita por mim e meu companheiro e já estamos nos perguntando, quando será a próxima.

Assista ao vídeo de nossa viagem: https://www.youtube.com/watch?v=xPw

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